Primeira Lição: O Patinho Feio

 

Desde cedo descobri que eu era o patinho feio da família. Dentre quatro irmãos, eu era o mais feio. Aliás, o único feio. E todo mundo fazia questão de dizer isso…: "Olha! São todos tão bonitinhos… Mas esse é muito feio!". E além de me condenar pelo que eu não escolhera para mim, pois, em sã consciência, como diz Aristóteles, ninguém escolhe o pior para si, ainda ficavam fingindo amenizar minha pseudo-responsabilidade, perguntando: "A quem diabo esse menino puxou, assim tão feio?".

As pessoas mais velhas, que conheciam a minha árvore genealógica, indicavam: "…Puxou ao finado Mané Padre"… Era um tio-avô numseidasquantas, que eu nem tinha como conferir tal semelhança. Entretanto, tinha gente que falava só pelo prazer de falar. Certamente, porque não tinha coisa melhor para dizer. Talvez nem tivesse capacidade para perceber algo mais interessante.

Outras pessoas, então, parecendo sentir pena da minha triste experiência frente àqueles comentários, tentavam aliviar minha barra, e findavam piorando ainda mais, dizendo: "Não, mulher! O finado Mané Padre era feio demais! Esse menino puxou à tia Babá, que criou o pai deles…". E talvez fosse verdade, pois, pelo menos isto explicava o fato de ela ter sido a única pessoa que demonstrava gostar mais de mim do que dos outros e não reclamar da minha feiúra. Quem sabe ela se via em mim… E o pior é que a velha era feia.

Mas logo alguém citava outro suposto parente desconhecido, do qual se pudesse explicar aquela minha condição peculiar. Só faltavam dizer que eu era adotado. Mas assim também já seria demais. Seria o mesmo que colocar minha cabeça num cepo, exposta a pauladas para, se não me matassem, pelo menos afilariam o nariz, diminuiriam as orelhas, apertariam os olhos e ainda me deixariam surdo para nunca mais ter que ouvir tanta besteira.

Mas, depois de ouvir tanto isso e perceber que eu não podia fazer nada pela minha triste condição estética, eu aprendi que nem adiantaria me esconder, pois eu não tinha culpa de nada disso. Eu não pedi para nascer feio nem "puxar" a ninguém, principalmente aos mais feios da família dos meus pais. E se eu tivesse pedido isto, então eu estava profundamente arrependido. Certamente eu era muito criança para saber o que eu queria para mim. Foi assim que, ao ler a Bíblia, eu entendi as últimas palavras de Jesus: "Pai! Perdoa, pois eles não sabem o que fazem!". Eu também tinha que ser perdoado, pois eu não sabia o que tinha feito. E então percebi que eu também tinha que perdoar aquelas pessoas, por não saberem o que faziam àquela criança pobre de beleza.

Certa vez, em viagem de carro, a trabalho, juntamente com mais três colegas, surpreendi-me com o espanto dos meus colegas frente à minha reação a uma piada repentina, contada por um deles.

Após algumas horas trafegando por uma estrada ruim, cheia de buracos e de curvas perigosas, íamos praticamente todo o tempo contando piadas para amenizar a tensão da viagem e do compromisso. Eram piadas bobas, anedotas, comentários de experiências de professor, lembretes de cenas curiosas, qualquer coisa que nos fizesse rir, para aproveitarmos a oportunidade de estarmos juntos naquela circunstância de trabalho. Não havia regra nem o compromisso de se contar piadas. Nem havia um humorista ou contador oficial. Às vezes o que era dito nem tinha a intenção de fazer rir, mas alguém sempre dava um jeitinho de acrescentar algo, que resultava em boas gargalhadas. E de versão em versão, alguém sempre tinha uma nova para contar.

Assim percorremos todo o caminho até chegar à cidade de destino, onde nos defrontamos com um tráfego mais intenso e lento, devido a uma blitz policial.

Ocorreu que naquele momento, após tantas gargalhadas, o nosso carro passou lentamente por uma transeunte à beira do caminho, numa calçada, segurando a mão de uma criança, como querendo atravessar a rua. E aquela cena inusitada apareceu aos nossos olhos provocando certo espanto. Foi quando o colega do meu lado fez uma piada repentina, instantânea, sobre a feiúra daquela mulher, branca, com semblante sisudo, aparentemente expressando a consciência revoltada pela sua condição estética, por certo devido a grande experiência de constante alvo de chacota. E, certamente, ao nos ver, quatro homens dentro de um carro, ela provavelmente já esperava mais uma das tantas piadas que ouvira sobre sua deficiência de beleza.

Mas, para espanto dos colegas, eu não sorri da piada. Talvez por ter percebido toda a expectativa da mulher, em seu semblante. Então, o piadista estranhou o meu silêncio enquanto todos gargalhavam. E com mais uma piada ele comentou a minha aparente indiferença à primeira e à reação dos demais. Surpresos, todos me olharam como a perguntar o porquê da minha atitude. Então isto me obrigou a lhes responder que eu não sabia rir da desgraça dos outros, pela qual eles não tiveram qualquer responsabilidade. Pois, ninguém tem culpa de nascer feio. Tem culpa de ser grosseiro, mal educado, mal humorado, mal arrumado, estúpido, mas não de ser feio. Portanto, daquilo valeria a pena rir, mas não da sua feiúra.

O bom disso é que eles concordaram comigo e até entenderam que o meu silêncio foi para não os coibir do riso. O que eles não sabiam, de fato, é que eu aprendi isso desde cedo, por experiência própria.

Anúncios
Publicado em CRÔNICA | 5 Comentários

Ode a Mossoró

Konilos Elaian

Um vento frio soprou-me a saudade

Das noites frescas de céu claro

Em Mossoró

Mas a melancolia a açoitou

Pela ausência do prazer

De estar só.

 


 

Lembrei-me das minhas aulas

Daqueles tantos encontros

Daquelas boas conversas

Das tantas prosas

Dos contos

Até dos cantos sem versos

De ida e volta sem pressa

Ao canto do meu descanso!

 

E ela assim me pegou

Sem corpo, face ou disfarce!

Tão cara

Quão tara de mim!

Tão só no meu pouco espaço

No escasso tempo do fim

 

Não fez, enfim, como faz

Como se me tivesse dó

Mas quase me atou

Mãos atrás

E a melancolia

Tão rara

Só apontou, minha cara

Com a covardia sem tento

De não me levar com o vento

Onde a brisa me aportou!

 


 

Publicado em Poesia | Deixe um comentário

Cuidado!

 

Como diz o poeta Peninha, "quem ama cuida!". E parafraseando Alceu Valença: "o descuido (ciúme) é a véspera do fracasso e o fracasso provoca o desamor". Porque cuidar exige cautela com a dor e desvelo com o prazer. Pois, sem prazer, para que o amor?

Então, cuide-se!

Ninguém precisa ficar sozinho, a menos que isto lhe dê prazer. Mas seria um contra-senso com a Natureza, uma atitude antipedagógica, visto que em nada educaria os homens; mesmo que lhes afetasse a sensibilidade, pouco lhes atingiria a inteligência. Então, por que fazer o que não é prazeroso nem educativo para ninguém? Afinal, os homens são nada mais do que aquilo que as mulheres permitem que eles sejam. Pois, a despeito da força, a mulher tem todo o poder: sabendo ouvir, ela tem a capacidade de aliviar toda a tensão do homem. Então, basta saber defender seus próprios valores e ser independente. Isso é tudo o que um homem busca a fim de retribuir os cuidados recebidos da própria mãe. Claro, desde que ela tenha cuidado bem dele, senão a mulher terá que reeducá-lo.

Por isso, lembrando Herbert Viana, "cuide bem do seu amor, seja quem for". E educar faz parte desse cuidado.

Cuide-se!

Publicado em CRÔNICA | Deixe um comentário

Ética e Poder

Educação para a Res Pública*

W. C. de Oliveirav

 

"O mando revela o homem". Bias.

 

 

Bias foi considerado um dos sete sábios gregos da antigüidade. Teve, por isso, o seu pensamento estudado por Aristóteles, o maior sistematizador da episteme de sua época. Isto fez da filosofia política de Aristóteles, por muito tempo, o paradigma da teoria política no mundo ocidental, em contraposição à de Platão, considerada mais como uma teoria política utópica. Em ambos, contudo, como no pensamento político grego antigo, ética e política andavam de mãos dadas. Porém, com O Príncipe, de Maquiavel, surge na história do pensamento ocidental, um esboço da ciência política moderna, ou seja, uma visão da política de forma menos filosófica e mais científica, menos abstrata e mais concreta, menos dada a especulações do dever-ser e mais atenta à análise dos fatos do mundo real, uma vez que Maquiavel dissocia os fatos políticos dos valores éticos.

Depois de Maquiavel, portanto, falar filosoficamente em dimensão ética da política parecia um retorno à utopia. Ao adotar aquela obra como um manual de política, os governantes estavam teoricamente respaldados para agir sem observar os princípios morais. A afirmação do poder constituiu-se como valor supremo, trazendo consigo histórias de dominação e injustiça.

Hoje, contudo, já se volta a falar na necessidade de se resgatar a dimensão ética da política, mediante um retorno aos antigos gregos. No pensamento ético-político de Aristóteles vislumbra-se a possibilidade de resgate dessa dimensão, graças ao seu conceito de homem como animal político, no qual reside não apenas a idéia do indivíduo racional, consciente, responsável, autor de suas ações, mas também a de cidadão, membro da pólis, homem livre obediente à lei. Idéias que expressam a ligação entre o individual e o coletivo num mesmo conceito, expressão da relação entre ética e política.

Na modernidade, porém, O Príncipe deu um tal respaldo teórico aos maus governantes para os atos mais atrozes sob a prerrogativa do poder, que este ocupou o status de valor-mor, sob o qual tem-se enterrado, explicitamente, histórias, homens e valores nobres e sobre o qual tem-se, desmasca-radamente, justificado as maiores injustiças contra a humanidade: contra a liberdade, a vida social, a dignidade pessoal, a paz.

Levado à prática, esse pensamento corruptor da ética na política estende-se também à massa de súditos que, reprimidos, não mais almejam justiça, mas tão-somente ser "amigo do rei": impotentes na força física, nos recursos financeiros e no pensamento, geraram a idéia de que, para quem está sob o terror da injustiça e sem o clamor da liberdade, impotente frente ao poder, é melhor postar-se ao lado dele. Com isto a vida social foi desvirtuada pela política em detrimento da ética: os valores nobres deram lugar à hipocrisia dos bobos da corte.

Restaram, contudo, dois elos não rompidos nessa cisão entre a ética e a política. São dois valores em torno dos quais não há como o pensamento não rearticular a dimensão supostamente perdida, haja vista a justiça, como valor ético, guardar uma dimensão política, e a liberdade, como valor político, guardar uma dimensão ética. Por isso, uma vez ultrajados tais valores, qualquer justificativa, mesmo de atos ditos legítimos, perde o respaldo ético.

Mas o que é a Ética, afinal, assunto tão falado em todo Estado democrático de direito, pelos juristas, sacerdotes e jornalistas de plantão? O que é a Ética senão a condição humana de bem viver em sociedade?! Que sentido tem falar de ética se não for para superar a mera condição de sobrevivência animal?! Que valor tem a política, como âmbito de legitimação da vida social, sem uma garantia do bem viver? Qual o seu crédito sem o respaldo de princípios éticos? E quais princípios podem garantir a legitimidade do bem viver sem justiça nem liberdade? Ora, se os súditos não são educados para a boa vida – leia-se: eticamente –, em que essa educação difere do adestramento animal para a sobrevivência – "escravidão ou morte"?

Faz-se mister, portanto, que todo dirigente, principalmente da res pública, tenha sempre em vista a imbricada dimensão entre a ética e a política, para que seus atos não impliquem numa cerca do poder frente à liberdade, tampouco incorram em danos sobre a justiça.

Pois é uma questão de ética: saber que nem tudo que se pode fazer legalmente, deve-se fazer de fato. E é uma questão de justiça os súditos não calarem frente à tentativa de usurpação da liberdade e da paz, tentativa que onera a vida social. Por isso é preciso indignar-se, como indício de que a nossa educação não é mero adestramento animal para a sobrevivência, mas sim um aprimoramento humano para a boa vida em sociedade.

 

Publicado em Artigo | Deixe um comentário

Bela

Bela (Sales Oliveira)

 

Como bela que tu és

Revela-te

Dessa beleza nada mais precisas ter

Que assim Deus te conserve

Mas não seja teu anseio apenas

Aquela beleza inútil

E breve

De fugaz prazer

Como a imagem

Que com o tempo do espelho se desfaz

 

Vela em ti a beleza plena

Do sentimento que te eleva

O que não se vê no espelho

Ninguém sabe a forma

Releva

Mas não me pergunte a cor

 

Como bela te conserves

E com ela observes

Que a beleza fútil não te faça útil

E a cada dia te reserves

Ao afeto que supera o tempo

Com uma beleza de eterno valor

 

 

Publicado em Poesia | Deixe um comentário

Sentido da Vida

Qual o Sentido da Vida?

W. C. Oliveirav

 

Será verdade que "os poetas vão salvar o mundo!"? Diga isso a um Poeta e provavelmente ele indagará: Quem disse que eu quero salvar o mundo? Eu quero é viver. Apenas faço da poesia a minha expressão de vida. Vivo a poesia. Para que salvar o mundo? Não posso sequer salvar a mim mesmo! Essa tarefa não é poética. É política. É religiosa. Numa querem salvar o mundo; na outra, o humano. Mas quem pode dizer que salvou alguém? No fundo o que todos querem é viver, é ser feliz. Inclusive o poeta. O poeta apenas exprime sua vida. …Sua, minha, dele, nossa… Assim também o político decide a sua vida e o religioso a salva.

Decida! Salve-se se quiser! Viva!

Pois não nos adianta procurar o sentido da vida. Nenhum poeta nos mostrará tal sentido. Nenhum político. Nenhum religioso. Simplesmente porque a vida não tem sentido. O sentido da vida é o que nós lhe damos: com a poesia, com a política, com a religião… Porque vida é atividade. É energia. É magia que criamos sem saber. Pois vida é também potência, possibilidade, poder.

O sentido da vida? Não está na vida. Está em quem vive. Está em saber viver. Feliz de quem dá sentido à vida.

Quer emprestado um sentido para a vida? Procure um Poeta, siga-o; não como salvador do mundo, mas como pessoa que poetiza a vida porque a quer bela, suave. Quer salvar o mundo? Procure um Político, siga-o; não como um salvador, mas como pessoa que politiza a vida porque não aceita determinação. Quer salvação? Procure um Religioso, siga-o; não como um salvador, mas como pessoa que transcende a vida porque quer viver mais por muito mais tempo.

O sentido da vida? Pobre dos seres inanimados, pois não podem lhe dar sentido. Mas triste do ser sem sentido, pois, embora tenha vivido, não aprendeu a viver; por isso se desanima. Então, viva! "…Animai-vos vós animais que se amam: pais, filhos e espíritos sãos! Pois os corpos vão e os amores ficam em ânimo são, dizendo: Amem! Amém!"p

Publicado em PENSAMENTOS | Deixe um comentário

Sonho ou Realidade?

Um Sonho ou Realidade?
w

Você tem se perguntado se vive um sonho ou uma realidade? Seu coração já não sabia mais o que era bater tão forte a cada vez que ouvisse a voz de alguém? Eis que de repente… Alguém que já existia há tanto tempo e que vivia tão perto de você através de mensagens, e-mails, aparições, invade seus pensamentos. E agora? Por que ele faz seu coração bater descompassado? Por que faz as pernas tremerem novamente? Que direito tem ele agora de fazer seu corpo tremer de prazer e sua boca sussurrar palavras de amor? Por quê?

Depois de algumas desilusões, alguém pensa: eu não queria mais isto para minha vida, porém, sinto-me flutuar em muitos momentos, e é você que me faz sentir assim. É, pois, o outro que nos últimos dias tem feito você voltar a sonhar. É ele que faz cada manhã ter um novo colorido. É ele que enche seu coração de alegria a cada mensagem lhe enviada. É ele que está reacendendo tantas luzes que haviam se apagado dentro de você. E você pensa: Meu sonho? Minha realidade? Não sei defini-lo. Mas sei querê-lo de uma forma intensa, apaixonante. E assim você deseja e espera a cada dia, o dia de estar perto dele, entregando-se aos mais loucos delírios de prazer, aos momentos mais intensos vividos por dois amantes, sem pudores, sem barreiras, uma entrega total, que seja capaz de levá-los a todos os êxtases que o prazer possa proporcionar.

Apesar de todo esse desejo, a razão, porém, lhe reporta a um breve futuro em que talvez você não desfrutar-lhe. Então, você diz: – Antes que isto aconteça ensina-me a perdê-lo e não sofrer; quero sempre sonhar contigo, não quero que a realidade me faça sofrer mais uma vez. É possível isto?

Da Realidade de um Sonho

Ou Um Sonho de Realidade

Não parece que seja a realidade que faz alguém sofrer em detrimento de um sonho, mas sim o não vivê-la. Pois, sobre ela temos algum domínio. Isto, porém, não acontece ao sonho, porquanto vagamos como nau à deriva. Então, reclamamos da realidade ao regressarmos dele, sem perceber que não lhe retornamos por causa dela, mas por falta de domínio sobre ele. Tanto é, que por mais que queiramos, não conseguimos reencontrá-lo; do mesmo modo que somos impotentes ao tentarmos fugir de um mau sonho: o pesadelo.

Por isso, a realidade deve ser preferível ao sonho. Nela pode-se sonhar e tornar real cada sonho possível. E por tê-lo realizado não é preciso lamentar o seu fim. Basta cuidar para que ele termine tão bem quanto começou, guardando-lhe as lembranças como um sonho, pelas quais deve valer o aprendizado ou o alimento da paixão de sonhos possíveis.

Tanto em sonho como na realidade, o que é vivido intensamente faz tremer o corpo, altera o compasso do coração, colore a paisagem, desperta a melodias, aguça o olfato e aquece a pele. Isto é paixão. É o que diz ao nosso corpo que não estamos sós, pois há um Outro que nos afeta. Só precisamos aprender a cuidar desse afeto, como amantes: como aquele que vive afetado pelo viver do apaixonante; que se interessa pelo interesse do interessante; que se importa com o que é importante para o amor do outro. Estes são os amantes. E o amor não é mais do que o cuidado que se tem um com o outro. É por ele que se sonha, que se deseja e se entrega sem pudor, se delira e vai-se a êxtase. E este é o alimento de toda paixão. Viva-a! Viva!!

Publicado em CRÔNICA | Deixe um comentário